
Com o início da Copa do Mundo de 2026 nesta quinta-feira (11), cresce o número de brasileiros expostos às apostas esportivas. Especialistas em saúde mental alertam para o aumento do risco de dependência, com impactos que podem comprometer a vida pessoal, profissional e financeira.
Conforme pesquisa da Kantar, 77% dos brasileiros pretendem acompanhar o torneio. Dentre eles, 37% afirmam que irão apostar durante o evento.
As modalidades preferidas incluem o resultado das partidas (51%), o número de gols (26%), o campeão do torneio (18%), lances específicos (10%) e o artilheiro da Copa (8%).
O médico psiquiatra e docente do curso de Medicina do Centro Universitário Max Planck (UniMAX), William Augusto, destaca que o fácil acesso às plataformas por meio dos celulares e a intensa divulgação das casas de apostas contribuem para a banalização do jogo.
“O sinal de alerta é a perda de controle. Muitos começam a apostar como forma de lidar com emoções negativas e, ao tentar recuperar perdas, entram em um ciclo vicioso”, explica.
O estudo “Raio X do Investidor Brasileiro”, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), mostra que o número de apostadores cresceu de 14%, em 2023, para 17%, em 2025.
Segundo a pesquisa, 11% desses apostadores já apresentam comportamento problemático, ou seja, a prática começa a comprometer as finanças, a vida pessoal ou o desempenho no trabalho.
Quando a diversão vira risco
A mesma pesquisa revela que o vínculo emocional com as apostas também aumentou. O percentual de pessoas que afirmam sentir emoção ao apostar passou de 25% para 27% entre 2023 e 2025.
Além disso, o número de apostadores que enxergam a atividade como forma de diversão subiu de 26% para 32%.
Para William Augusto, essa percepção pode obscurecer os riscos. “A dependência é um transtorno do controle de impulsos. Não se trata de uma falha moral, mas de um processo que altera o funcionamento cerebral, comprometendo a capacidade de decisão”, afirma.
Quando o comportamento se torna compulsivo, o transtorno afeta diversas áreas da vida. Entre as consequências estão isolamento social, irritabilidade, ansiedade, depressão e endividamento.
Em situações mais graves, pessoas deixam de pagar contas básicas e recorrem a empréstimos para continuar apostando, acumulando prejuízos que podem se tornar irreversíveis.
O psiquiatra recomenda atenção aos primeiros sinais e a busca precoce por tratamento. “A maioria dos pacientes só procura ajuda quando o quadro já está grave. Identificar o problema cedo aumenta as chances de recuperação”, alerta.
Apoio do SUS no combate à dependência
William Augusto foi um dos responsáveis pela elaboração do “Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas”, lançado pelo Ministério da Saúde em janeiro.
O material é voltado a profissionais da atenção primária e da saúde mental e traz orientações sobre identificação, acolhimento e condução dos casos no sistema público de saúde.
A publicação está disponível gratuitamente no site do Ministério da Saúde e integra as ações da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), fortalecendo o atendimento a pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo compulsivo.