Freira Luciana Mattos Teixeira
Foto: Arquivo Pessoal
Freira Luciana Mattos Teixeira

De hábito e raquete em mãos, a freira Luciana Mattos Teixeira foge dos estereótipos tradicionais da vida religiosa . Aos 38 anos, integrante da Congregação das Missionárias de Cristo, ela divide a rotina entre oração, missão pastoral e partidas regulares de tênis em Louveira, no interior de São Paulo. A prática esportiva, iniciada já após a entrada no convento, tornou-se parte importante do cuidado com a saúde física e emocional.

Natural de Parintins, no Amazonas, Luciana cresceu em Manaus, em uma família católica, e teve contato com a Igreja desde cedo. Ainda jovem, começou a participar de atividades pastorais, mas a decisão pela vida religiosa amadureceu aos poucos.

Aos 23 anos, quando cursava Turismo e trabalhava em um hotel, conheceu a Congregação das Missionárias de Cristo, fundada em Jundiaí, SP, e voltada à evangelização e ao atendimento de crianças em situação de vulnerabilidade social.

“Fui para passar dez dias e acabei ficando um mês”, recorda. “Voltei com a certeza de que era ali que eu deveria estar.” A entrada oficial ocorreu em 12 de outubro de 2011.

Atualmente em missão em Louveira, Luciana atua na formação de noviças e colabora com atividades pastorais. Foi nesse contexto, já vivendo a rotina do convento, que o esporte entrou em sua trajetória, de forma inesperada. O Portal iG conversou com a Imã Luciana, acompanhe a entrevista abaixo.

“O tênis entrou na minha vida quando eu já era freira”

Quando surgiu o interesse pelo tênis?

“Iniciei em 2020, quando estava em Pirapozinho. Eu já vivia a vida religiosa havia cerca de sete anos.”

Você já tinha relação com esportes antes disso?

“Sim. Sempre gostei de esporte. Antes do convento, pratiquei natação, joguei handebol e, até hoje, na comunidade, jogamos futebol e queimada.”

O incentivo para começar veio após o diagnóstico de artrite reumatoide. Por orientação médica, Luciana precisava manter uma atividade física regular. A sugestão partiu de um amigo, o médico Carlos Funes, praticante de tênis.

“Ele perguntou se eu sabia jogar. Eu disse que não, e naquele mesmo dia fomos para a quadra”, conta.

Irmã Luciana durante treino em academia
Foto: Arquivo Pessoal/ Reprodução
Irmã Luciana durante treino em academia


Disciplina física e mental

O início foi marcado por treinos básicos e jogos informais. Com o tempo, o tênis passou a fazer parte da rotina semanal.

O que mais te atraiu no esporte?

“É um esporte muito completo. Trabalha o corpo, mas também exige concentração, estratégia e disciplina.”

Além dos benefícios físicos, a prática contribuiu para o controle das dores causadas pela doença. No entanto, os efeitos mais profundos vieram em um momento delicado da vida pessoal.

“O esporte me ajudou a atravessar o luto”

Nos últimos anos, Luciana enfrentou perdas importantes na família: primeiro o irmão, depois o pai e, mais recentemente, a mãe. Mesmo com uma vida ancorada na fé, o impacto emocional foi intenso.

Em que momento o tênis ganhou outro significado?

“Depois da morte do meu pai. A partir dali, passei a jogar com mais frequência.”

De que forma o esporte ajuda emocionalmente?

“O luto mexe com tudo. O tênis me ajuda a organizar os sentimentos, a respirar, a manter equilíbrio.”

Após um período de pausa em 2024, ela retomou os treinos neste ano, já em Louveira. Atualmente, joga uma ou duas vezes por semana na Pirikito Tênis Academia, onde convive com jovens, adultos e até adolescentes ligados à comunidade paroquial.

Vida religiosa e esporte não se opõem

Para Luciana, não existe conflito entre a vocação religiosa e a prática esportiva.

Como conciliar a rotina do convento com o esporte?

“A prioridade sempre é a vida religiosa. O tênis entra como complemento, sem atrapalhar a oração ou a missão.”

Você vê pontos em comum entre fé e esporte?

“Muitos. Disciplina, perseverança, respeito, ética e paciência. Tudo isso está presente nos dois.”

Segundo ela, o esporte ajuda inclusive na convivência comunitária. “Cuidar do corpo também é uma forma de cuidar da missão.”


Quebrando estereótipos

A imagem de uma freira jogando tênis ainda provoca surpresa, especialmente fora do ambiente religioso.

Como as pessoas costumam reagir?

“Ficam admiradas. Ainda existe aquela ideia de que freira precisa ser triste ou distante.”

Você já sofreu preconceito?

“Não. Mais curiosidade do que qualquer outra coisa.”

Na quadra, a presença da religiosa acaba despertando conversas sobre fé e Igreja. “Às vezes alguém pede uma oração ou pergunta sobre a missa. É uma forma simples de aproximação.”

Tênis e integração

Além dos treinos regulares, Luciana integra o grupo feminino “ As Poderosas do Tênis ”, que reúne mulheres de diferentes idades e cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC).

De acordo com Julio D´Auria, fundador do grupo, "A liga soma cerca de 300 atletas, com idades entre 15 e 75 anos, de mais de 20 municípios de São Paulo e cinco estados.

As mulheres que tiverem interesse em participar das atividades podem entrar em contato através do perfil no Instagram @aspoderosasdotenis.

Para a freira, o esporte também fortalece vínculos comunitários. “A quadra é um espaço de encontro. Ali surgem conversas, amizades e cuidado.”

Entre a missão pastoral e os jogos semanais, Luciana segue conciliando fé, esporte e vida comunitária. “Quando Deus está em primeiro lugar, tudo encontra seu equilíbrio”, resume.

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