
A popularização de medicamentos utilizados no controle do diabetes e no emagrecimento levantou uma dúvida entre tutores de cães e gatos: seria possível recorrer ao Mounjaro, à base de tirzepatida, para ajudar pets com excesso de peso? A resposta, segundo o médico-veterinário Francis Flosi, é clara: não.
Diretor geral da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas, Flosi explica que medicamentos desenvolvidos para humanos não podem ter seu uso simplesmente reproduzido em animais.
Cães e gatos apresentam diferenças fisiológicas, metabólicas e nutricionais que precisam ser consideradas antes de qualquer tratamento.
Além disso, o excesso de peso não deve ser tratado apenas como uma questão estética. A obesidade pode comprometer a mobilidade, o bem-estar e a qualidade de vida dos animais e estar associada a diferentes problemas de saúde.
Na entrevista a seguir, o veterinário explica os riscos do uso indiscriminado do Mounjaro, como deve ser conduzido o emagrecimento de cães e gatos e qual é o papel dos tutores nesse processo.
O Mounjaro pode ser utilizado para emagrecer cães e gatos?
Não se deve administrar Mounjaro em cães, gatos ou outros animais de estimação por conta própria. A tirzepatida é um medicamento desenvolvido e aprovado para uso humano, e não existe indicação veterinária estabelecida que permita tratar a obesidade de cães e gatos simplesmente reproduzindo o tratamento utilizado em pessoas.
Por que um medicamento que funciona em humanos não pode ser simplesmente utilizado nos animais?
Cães e gatos possuem características fisiológicas, metabólicas e nutricionais próprias. Um medicamento que apresenta determinado mecanismo de ação e segurança em seres humanos pode ter comportamento diferente em um animal.

O Mounjaro atua sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1, interferindo em mecanismos relacionados à glicemia, ao apetite e ao funcionamento do sistema digestivo.
Na medicina humana, a molécula possui indicações específicas, doses determinadas e acompanhamento médico. Isso não significa que seus efeitos possam ser automaticamente transferidos para outras espécies.
Qual é o principal risco de o tutor tentar emagrecer o pet por conta própria?
O risco é transformar uma tentativa de emagrecimento em um problema de saúde. A busca por uma solução rápida pode fazer com que o animal receba um medicamento sem que suas condições clínicas, seu peso ideal, sua alimentação e outros fatores sejam avaliados.
Quando percebemos que um cão ou gato está acima do peso, a primeira atitude não deve ser procurar uma “caneta para emagrecer”, mas procurar um médico-veterinário.
A obesidade animal é apenas uma questão estética?
Não. O excesso de peso não é apenas uma questão estética. A obesidade pode estar associada a alterações metabólicas e ao aumento do risco de problemas como doenças osteoarticulares, diabetes, alterações cardiovasculares e outras condições que comprometem a mobilidade, o bem-estar e a qualidade de vida do animal.
Por isso, o peso e a condição corporal precisam ser avaliados individualmente, considerando espécie, idade, raça, condição clínica, alimentação e nível de atividade.
Como deve ser o emagrecimento de cães e gatos?
A perda de peso precisa ser planejada e acompanhada. O objetivo não é simplesmente fazer o animal comer menos, mas promover uma redução de gordura preservando massa muscular, garantindo nutrientes e evitando consequências metabólicas.
O programa de emagrecimento deve considerar a necessidade energética individual, o peso ideal, a alimentação, a condição corporal, a rotina e possíveis doenças associadas. O acompanhamento periódico permite ajustar o plano conforme a resposta do paciente.
Em outras palavras, o emagrecimento do pet precisa ser tratado como uma questão de saúde, e não como uma dieta improvisada.
O tutor também precisa mudar hábitos?
A participação da família é fundamental. É muito comum que o responsável ofereça petiscos, biscoitos, restos de alimentos ou pequenas porções durante o dia sem contabilizar essas calorias.
Aquilo que parece pouco para uma pessoa pode representar uma quantidade significativa para um cão ou gato. Por isso, a alimentação precisa ser adequada à espécie, idade, porte, condição corporal e necessidades individuais.
Não basta escolher uma boa ração?
Não. A quantidade oferecida também precisa ser adequada. A orientação deve considerar o peso ideal e as necessidades energéticas do paciente.
Além disso, petiscos, biscoitos e alimentos oferecidos fora da dieta principal também fornecem calorias. Esses itens precisam ser contabilizados dentro da ingestão diária do animal.
A atividade física também faz parte do tratamento?
Sim. Caminhadas, brincadeiras, atividades de enriquecimento ambiental e exercícios adequados à condição física do animal podem fazer parte do programa de controle de peso.
Para cães, brincar de buscar objetos, correr e interagir em ambientes apropriados pode estimular o movimento. Para gatos, brincadeiras que incentivem perseguição e exploração também são importantes.
Mas um animal obeso não deve simplesmente ser submetido a exercícios intensos. O tipo e a intensidade da atividade precisam considerar idade, condição física, articulações e possíveis doenças.
Peso na balança não conta toda a história
Por que a avaliação veterinária é tão importante?
Porque existe uma diferença entre simplesmente pesar um animal e avaliar sua condição corporal. Dois cães podem apresentar o mesmo peso na balança e ter condições físicas completamente diferentes.
A avaliação veterinária considera fatores como escore de condição corporal e condição muscular, além do histórico alimentar e clínico. Algumas doenças também podem contribuir para alterações de peso.
Da mesma forma, um animal que apresenta ganho de peso não deve ser colocado automaticamente em uma dieta restritiva sem que sua condição seja investigada.
O tratamento começa pelo diagnóstico.
Então, o medicamento humano não deve ser encarado como um atalho?
Exatamente. A tirzepatida possui ação farmacológica específica e efeitos adversos conhecidos em seres humanos. A existência de um medicamento eficaz em pessoas não significa que ele possa ser considerado automaticamente seguro ou eficaz para cães e gatos.
Quando falamos de animais, a responsabilidade é ainda maior. Não devemos transformar o pet em uma extensão do tratamento humano.
Cada espécie apresenta particularidades e cada paciente precisa ser avaliado individualmente.
Prevenção começa dentro de casa
É possível prevenir a obesidade dos animais?
Prevenir o ganho excessivo de peso é muito mais simples do que tratar uma obesidade já instalada. Isso significa estabelecer uma rotina alimentar adequada desde cedo, controlar a quantidade de alimento oferecida, não transformar petiscos em demonstração permanente de afeto e estimular atividades físicas compatíveis com o animal.
Também precisamos mudar uma percepção cultural: amar um animal não significa oferecer comida o tempo todo.
Muitas vezes, o responsável oferece um biscoito porque quer agradar, recompensa um comportamento com alimento ou compartilha aquilo que está comendo. Esse hábito, repetido diariamente, pode contribuir para o excesso calórico.
Como demonstrar carinho sem recorrer à comida?
Carinho também pode ser demonstrado com brincadeiras, passeios, atenção, enriquecimento ambiental e tempo de qualidade.
O objetivo não deve ser simplesmente fazer o animal “ficar magro”. O compromisso precisa ser com mais saúde, mobilidade, disposição e qualidade de vida.
Qual é a principal orientação para quem percebe que o pet está acima do peso?
Mounjaro, ou tirzepatida, não deve ser administrado em cães, gatos ou outros animais de estimação sem indicação e acompanhamento de um médico-veterinário.
Se o animal está acima do peso, a recomendação é procurar atendimento veterinário para uma avaliação completa. A partir daí, o profissional poderá definir uma estratégia segura, que pode envolver adequação alimentar, controle de porções, atividade física, acompanhamento da condição corporal e investigação de possíveis doenças associadas.
Emagrecer um pet não é apenas reduzir a quantidade de comida. É cuidar da saúde, respeitar a fisiologia de cada espécie e garantir que o processo aconteça de maneira segura.
Não existe fórmula mágica. Existe acompanhamento, disciplina, mudança de hábitos e, principalmente, conhecimento técnico.