
A redução da chamada "taxa das blusinhas" para compras internacionais voltou a movimentar o comércio eletrônico brasileiro e deve ampliar ainda mais a presença de produtos importados nos principais marketplaces do País. A avaliação é reforçada por um levantamento da plataforma de inteligência de dados JoomPulse, que identificou forte crescimento na oferta de itens estrangeiros nos meses que antecederam a mudança tributária anunciada pelo Governo Federal.
Os dados mostram que a expansão dos produtos internacionais já estava em curso antes mesmo da alteração das alíquotas federais. Somente em abril de 2026, foram cadastrados 14,1 milhões de novos anúncios internacionais no Mercado Livre.
O número ficou próximo ao recorde registrado em março, quando a plataforma recebeu 14,6 milhões de novos anúncios estrangeiros.
Segundo a JoomPulse, o movimento demonstra que os marketplaces vinham ampliando seus catálogos internacionais diante da expectativa de mudanças no ambiente tributário.
Em março, o volume de novos anúncios importados superou sozinho o crescimento acumulado dos 14 meses anteriores.
Para João Sartini, Head de Vendas da JoomPulse, a tendência é de aceleração desse processo nos próximos meses.
"A redução da 'taxa das blusinhas' tende a acelerar ainda mais esse movimento e aumentar a presença de anúncios internacionais em categorias nas quais o consumidor é mais sensível a preço e variedade", afirma.
Presença internacional cresce nos marketplaces
Além do aumento da oferta, a participação dos produtos importados dentro das plataformas também avançou. Entre abril de 2025 e abril de 2026, a fatia dos pedidos internacionais no Mercado Livre passou de 0,10% para 0,87%.
Já a participação desses produtos no volume financeiro movimentado pela plataforma cresceu de 0,09% para 0,72%.
O primeiro trimestre deste ano marcou uma aceleração importante dessa tendência. Em fevereiro, o marketplace registrava cerca de 4,8 milhões de anúncios internacionais ativos, número significativamente superior aos aproximadamente 400 mil observados em janeiro de 2025.
No mês seguinte, o volume praticamente triplicou, alcançando 14,6 milhões de novos anúncios.
A sequência de crescimento indica que o avanço não ocorreu por fatores sazonais, mas por uma estratégia consistente de ampliação da oferta internacional.
Games, joias e acessórios lideram expansão
O levantamento aponta que algumas categorias já possuem predominância de produtos importados. Entre os destaques estão os acessórios para computadores voltados ao público gamer, nos quais os anúncios internacionais representam 82% da oferta disponível.
Outros segmentos também apresentam participação expressiva de vendedores estrangeiros, como joias e bijuterias, pelúcias, equipamentos médicos, navegadores GPS automotivos e acessórios para animais de estimação.
A mudança tem alterado a dinâmica competitiva dentro dos marketplaces. Especialistas avaliam que os vendedores brasileiros precisarão investir cada vez mais em eficiência operacional, gestão de custos e estratégias de diferenciação para manter competitividade diante do crescimento dos produtos importados.
"No ecommerce, eficiência operacional deixou de ser diferencial e virou questão de sobrevivência. As margens são cada vez mais apertadas, então o seller precisa ter uma gestão muito disciplinada de custos, logística e operação", afirma Gabriel Bollico, fundador do Ecommerce Puro.
Oferta cresce mais rápido que as vendas
Apesar da expansão acelerada dos anúncios internacionais, os números indicam que as vendas ainda não acompanham o mesmo ritmo de crescimento da oferta.
Em categorias como Música, Filmes e Seriados, por exemplo, os produtos importados representam quase metade dos anúncios disponíveis, mas concentram apenas uma pequena parcela dos pedidos efetivamente realizados. Situação semelhante é observada nos segmentos de brinquedos, hobbies, joias e ferramentas.
Para especialistas do setor, o cenário deve aumentar a importância do uso de inteligência artificial e ferramentas de análise de dados por parte dos vendedores brasileiros.
"Hoje, a inteligência artificial permite que até pequenos sellers tenham acesso a análises, otimização de anúncios e produção de conteúdo de uma forma que antes era restrita a grandes operações", afirma Alexandre Nogueira, fundador da Universidade Marketplaces.
A expectativa é que a combinação entre menor tributação sobre importações, ampliação dos catálogos internacionais e uso crescente de tecnologia continue transformando o mercado de comércio eletrônico no Brasil ao longo dos próximos meses.