
A queda do avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo terá uma nova etapa nesta quinta-feira (23), quando o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apresentará o relatório final sobre o acidente . A divulgação ocorrerá durante uma coletiva de imprensa, às 17h, em Brasília, conforme confirmou a Força Aérea Brasileira (FAB) nesta segunda-feira (20).
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024 e mobilizou uma das mais complexas investigações da aviação brasileira dos últimos anos.
Agora, quase dois anos depois da tragédia, o documento deverá apontar os fatores que contribuíram para a queda do ATR 72-500 e apresentar recomendações para evitar que ocorrências semelhantes voltem a acontecer.
A conclusão do Cenipa é aguardada por familiares das vítimas, especialistas e autoridades. O trabalho, no entanto, tem caráter técnico e preventivo. A apuração sobre uma eventual responsabilidade criminal segue sob responsabilidade da Polícia Federal.
Relatório passou por revisão internacional
A versão final do documento foi submetida a uma etapa de revisão internacional antes de ser concluída.
O procedimento segue normas da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) e permite a participação de autoridades dos países envolvidos no projeto, fabricação e certificação da aeronave.
O relatório foi analisado pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país onde o ATR 72-500 foi desenvolvido.
O Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, também participou da revisão por ser responsável pela certificação dos motores utilizados no modelo.
Depois de receber as observações técnicas dos dois órgãos, o Cenipa avaliou as contribuições e finalizou o documento que será apresentado nesta semana.
Investigação analisou voo, aeronave e condições meteorológicas
Para chegar às conclusões, os investigadores analisaram os gravadores de voz da cabine (CVR) e de dados de voo (FDR).
Também foram examinados os motores, os sistemas de degelo e de proteção contra estol, além das condições meteorológicas registradas durante o voo.
A apuração incluiu ainda documentos de manutenção, certificados médicos dos pilotos e componentes retirados dos destroços.
Os investigadores também analisaram informações de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves do mesmo modelo.
Pilotos, mecânicos e outros profissionais foram entrevistados durante o trabalho. Testes em simuladores também fizeram parte da investigação, assim como um voo experimental realizado com outro ATR 72-500.
Até mesmo lâmpadas dos painéis de comando foram analisadas. Segundo informações divulgadas anteriormente pelo Cenipa, o objetivo era identificar quais sistemas permaneciam acionados nos momentos que antecederam a queda.
Relatório preliminar apontou alertas de gelo
Uma das informações apresentadas durante a investigação veio do relatório preliminar divulgado em setembro de 2024.
Na ocasião, o Cenipa informou que a tripulação recebeu sucessivos alertas relacionados ao acúmulo de gelo durante a fase final do voo.
O sistema de degelo foi acionado durante a operação. O documento preliminar também apontou que a aeronave entrou em uma condição anormal de voo antes de perder altitude rapidamente.
Na época, porém, o Cenipa ressaltou que aquela análise ainda não tinha como objetivo indicar as causas do acidente ou atribuir responsabilidades.
A conclusão definitiva será apresentada agora, após o encerramento da investigação técnica.
Polícia Federal mantém investigação criminal
A apuração do Cenipa ocorre de forma independente do inquérito conduzido pela Polícia Federal.
Enquanto o órgão ligado à Aeronáutica busca identificar fatores que contribuíram para o acidente e propor medidas de prevenção, a investigação policial procura verificar se houve crime e possíveis responsáveis.
No fim de junho, investigadores se reuniram com representantes das famílias das vítimas para apresentar os procedimentos finais antes da conclusão da investigação criminal.
Depois de concluído, o inquérito deverá ser encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), que será responsável por avaliar eventuais medidas na esfera judicial.
Tragédia matou 62 pessoas em Vinhedo
O voo 2283 da Voepass havia decolado de Cascavel (PR) com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) na manhã de 9 de agosto de 2024.
Pouco antes do pouso, o ATR 72-500 perdeu altitude de forma repentina e caiu sobre um condomínio residencial em Vinhedo. A aeronave transportava 58 passageiros e quatro tripulantes. Ninguém sobreviveu.
Apesar de o acidente ter ocorrido em uma área habitada, nenhum morador do condomínio foi atingido.
A tragédia foi o acidente aéreo mais grave registrado no Brasil desde a queda do voo da TAM em Congonhas, em 2007.
A divulgação do relatório final do Cenipa, portanto, representa um momento aguardado desde os primeiros dias após a queda e deverá trazer novos elementos para o entendimento do que aconteceu durante os minutos finais do voo.