Menos volume, mais conforto: mulheres repensam o silicone

Explante cresce nos consultórios e revela mudança na relação com estética, saúde e padrões de beleza

Retirada de silicone ganha espaço entre mulheres preocupadas com saúde
Foto: Imagem: FreePik
Retirada de silicone ganha espaço entre mulheres preocupadas com saúde

Durante anos, colocar silicone foi associado a uma ideia de beleza ligada ao aumento de volume, curvas mais marcadas e maior projeção corporal . A escolha se tornou comum entre muitas mulheres, influenciada por referências da televisão, revistas, cultura pop e, mais recentemente, pelas redes sociais. Agora, esse movimento começa a ser revisitado com o crescimento da procura pelo explante mamário, procedimento de retirada das próteses de silicone.

A mudança ganhou visibilidade com relatos de personalidades como Carolina Dieckmann, Isabeli Fontana, Fiorella Mattheis e Manu Gavassi, que compartilharam publicamente a decisão de retirar os implantes.

No entanto, segundo especialistas, o fenômeno vai além da exposição de famosas e representa uma transformação na forma como algumas mulheres avaliam estética, saúde e qualidade de vida.

O cirurgião plástico Dr. Tárik Nassif, membro especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Médica Brasileira (AMB), explica que o aumento dos explantes não deve ser interpretado apenas como uma tendência passageira.

“O aumento no número de explantes mamários pode até parecer uma tendência, mas na verdade está associado a fatores médicos como as complicações causadas pelo implante, entre elas, contratura capsular, ruptura, seroma tardio entre outras.”

Saúde e estética entram na decisão pelo explante

Em alguns casos, a retirada das próteses ocorre após o surgimento de alterações físicas relacionadas ao implante.

Entre as situações que podem indicar o procedimento estão ruptura da prótese, contratura capsular avançada, infecções e seroma tardio.

“Além disso, algumas pacientes podem desenvolver sintomas sistêmicos ‘breast implant illness’ (BII), causando por exemplo: cansaço, queda de cabelo e alteração do humor”, explica o médico.

Os sinais podem aparecer de diferentes formas e exigem avaliação profissional. “As mamas podem ficar vermelhas, quentes, inchadas, com saída de secreção e a paciente ter febre”, orienta Nassif.

Há ainda casos que envolvem condições mais complexas, como a Síndrome ASIA e o linfoma associado ao implante mamário, situações que demandam acompanhamento médico e análise individualizada.

Apesar dos relatos de sintomas relacionados ao silicone, o especialista destaca que o tema ainda gera discussões dentro da comunidade científica.

“O tema ainda é muito controverso”, afirma. Segundo ele, “sabe-se que o implante mamário não é totalmente inerte, em determinadas pacientes pode causar uma resposta inflamatória e espessamento da cápsula causando contratura capsular e também seroma tardio”.

O médico ressalta que alguns grupos podem apresentar maior sensibilidade. “Pacientes com doenças autoimune como artrite reumatoide ou Sd de Sjögren podem apresentar piora sistêmica em decorrência do implante.”

Nova estética valoriza naturalidade, mas mantém padrões

Além dos fatores médicos, o crescimento do explante também acompanha uma mudança cultural na relação das mulheres com o próprio corpo.

O ideal de beleza baseado em maior volume perde espaço para uma estética associada à naturalidade, leveza e funcionalidade.

A transformação, porém, não significa necessariamente o abandono dos padrões estéticos. Em muitos casos, ocorre apenas uma mudança de referência.

Se antes o corpo com curvas acentuadas era valorizado, agora cresce a busca por uma aparência considerada mais natural, frequentemente ligada a hábitos como atividade física, alimentação equilibrada e cuidados com a saúde.

“A mudança do hábito de vida, com a prática de atividade física, alimentação saudável e sono de qualidade mudaram a percepção do corpo, buscando a melhora na qualidade de vida e diminuído a tolerância de riscos a longo prazo”, afirma Nassif.

Nesse cenário, o explante passa a representar uma decisão mais ampla. A escolha deixa de estar apenas relacionada ao tamanho das mamas e envolve uma reflexão sobre conforto, bem-estar e expectativas pessoais.


Retirada do silicone pode exigir procedimentos complementares

Uma das principais dúvidas das pacientes que consideram o explante está relacionada ao resultado após a retirada das próteses. De acordo com o especialista, a aparência das mamas pode mudar após o procedimento.

“Após a retirada dos implantes as mamas podem se tornarem flácidas e com excesso de pele”, explica. Por esse motivo, algumas pacientes associam o explante à mastopexia, cirurgia realizada para ajustar e levantar as mamas.

“Nesses casos associamos o explante com a mastopexia (cirurgia para ajustar e levantar as mamas)”, afirma o médico.

Também pode ser indicado o uso de enxerto de gordura em situações específicas. “Em casos selecionados é possível associar enxerto de gordura para melhorar o aspecto e a forma das mamas.”

Segundo Nassif, alguns casos podem demandar mais de uma intervenção.

“Alguns explantes decorrentes de infecção ou contratura poderão necessitar de cirurgias complementares nos casos de retração, assimetrias ou irregularidades.”

Por isso, o alinhamento entre expectativa e possibilidade de resultado é considerado fundamental.

“O alinhamento da expectativa do resultado com a paciente é de extrema importância para se evitar frustrações e descontentamentos futuros.”

O crescimento da procura pelo explante não representa o fim do uso do silicone, mas evidencia uma mudança na maneira como as mulheres tomam decisões sobre o próprio corpo.

Mais informadas e atentas aos riscos e benefícios, muitas pacientes passaram a buscar escolhas que conciliem estética, saúde e qualidade de vida.

No lugar de uma única referência de beleza, ganha espaço a ideia de que cada mulher deve avaliar o que faz sentido para sua própria realidade, considerando seus desejos, sua saúde e sua relação com o corpo.