Tratamento da obesidade vai além das canetas emagrecedoras

Medicamentos ajudam a controlar a fome biológica, mas mudanças de hábitos e atenção à saúde emocional seguem fundamentais

Canetas emagrecedoras
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Canetas emagrecedoras

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras revolucionou o tratamento da obesidade e do sobrepeso nos últimos anos. Medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida demonstraram eficácia na perda de peso ao reduzir a fome e aumentar a sensação de saciedade. No entanto, especialistas alertam que essas terapias, apesar dos avanços, não são suficientes para tratar todos os fatores envolvidos na doença, especialmente aqueles ligados ao comportamento e às emoções.

Considerada uma doença crônica, multifatorial e recorrente, a obesidade envolve mecanismos biológicos, psicológicos e ambientais.

Por isso, o sucesso do tratamento depende de uma abordagem ampla, que combine acompanhamento médico, mudanças no estilo de vida, alimentação equilibrada, atividade física e, em muitos casos, suporte psicológico.

Segundo o médico pós-graduado em nutrologia e medicina esportiva Leonardo Kyrillos, é importante compreender que nem toda vontade de comer está relacionada à necessidade de energia do organismo.

"O medicamento reduz a intensidade dos sinais de fome, mas os padrões aprendidos ao longo da vida podem permanecer presentes", explica.

Nem toda fome é igual

Os especialistas classificam a fome em diferentes tipos. A chamada fome fisiológica, ou homeostática, surge de forma gradual e atende à necessidade natural do organismo de repor energia.

Já a fome hedônica está relacionada ao prazer proporcionado pelos alimentos, principalmente aqueles ricos em açúcar, gordura e sal, que ativam o sistema de recompensa do cérebro.

Há ainda a fome emocional, caracterizada pelo consumo de alimentos como forma de aliviar sentimentos como ansiedade, estresse, tristeza ou frustração, mesmo quando não existe necessidade física de comer.

A relevância desse comportamento foi reforçada por um estudo publicado em janeiro de 2025 pelo British Journal of Psychology.

A pesquisa, que analisou dados de mais de 21,2 mil pessoas com sobrepeso e obesidade, identificou que 44,9% dos participantes apresentavam episódios de fome emocional, indicando que quase metade utilizava a comida como resposta a questões emocionais.

Como agem as canetas emagrecedoras

As chamadas canetas emagrecedoras atuam em receptores hormonais ligados ao controle da fome e da saciedade, como o GLP-1 e o GIP.

Entre os efeitos mais percebidos pelos pacientes está a redução do chamado food noise, expressão usada para descrever pensamentos frequentes e persistentes sobre comida.

Além de aumentar a sensação de saciedade, os medicamentos retardam o esvaziamento do estômago e diminuem a resposta do cérebro a alimentos altamente palatáveis.

Apesar desses benefícios, Leonardo Kyrillos ressalta que os remédios não modificam, por si só, a relação construída ao longo da vida entre emoções e alimentação.

"Questões como comer por recompensa ou por tédio e o uso da comida como estratégia emocional requerem intervenções educacionais e psicológicas complementares", afirma.


Mudança de hábitos reduz risco do efeito sanfona

Outro desafio do tratamento é manter os resultados após a suspensão da medicação. Sem mudanças consistentes no estilo de vida, os mecanismos naturais da fome voltam a atuar, aumentando o risco de recuperação do peso perdido.

Além da reeducação alimentar, a prática regular de exercícios físicos, especialmente os de força, e o consumo adequado de proteínas ajudam a preservar a massa muscular durante o emagrecimento.

Esse cuidado contribui para manter o metabolismo mais ativo e reduzir as chances do chamado efeito sanfona.

Para os especialistas, as medicações representam um importante recurso no combate à obesidade, mas devem integrar um plano terapêutico individualizado.

O tratamento duradouro depende da combinação entre controle biológico da fome, adoção de hábitos saudáveis e atenção aos fatores emocionais que influenciam a alimentação.